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07 Oct

A infraestrutura portuária diante do novo padrão climático

21 de julho de 2026
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Os riscos climáticos passaram a integrar, de forma definitiva, a agenda estratégica das infraestruturas críticas. No setor portuário, essa realidade assume especial relevância, pois os portos dependem diretamente de acessos logísticos, equipamentos críticos, janelas operacionais e continuidade da movimentação de cargas.

Em recente evento promovido em Paranaguá pela Lockton, em parceria com a AXA e com a participação do renomado Dr. Paulo Cremoneze, abordei, durante palestra sobre riscos climáticos, riscos e seguros em áreas portuárias, a necessidade de compreender o risco climático a partir de uma perspectiva estruturada, tendo como uma das referências conceituais a abordagem do IPCC — Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

O IPCC é o órgão científico das Nações Unidas responsável por avaliar e consolidar o conhecimento global sobre mudanças climáticas, impactos, vulnerabilidades e adaptação. No Sexto Relatório de Avaliação, o IPCC define o risco climático como resultado da interação dinâmica entre ameaças climáticas, exposição e vulnerabilidade dos sistemas afetados. No contexto portuário, acrescenta-se ainda a capacidade de resposta como elemento essencial para transformar risco em estratégia de resiliência.

Essa abordagem pode ser aplicada aos portos a partir de quatro pilares principais:

  • Ameaça climática: evento ou tendência capaz de afetar a operação, como chuva extrema, vendaval, ressaca, maré meteorológica, elevação do nível do mar, onda de calor, erosão costeira, seca ou eventos combinados.
  • Exposição: tudo aquilo que pode ser atingido por um evento climático, incluindo cais, píeres, armazéns, silos, pátios, equipamentos, cargas, acessos ferroviários e rodoviários, sistemas elétricos, pessoas, fornecedores, contratos e receitas.
  • Vulnerabilidade: grau de fragilidade da infraestrutura e da operação diante da ameaça climática, como drenagem insuficiente, ativos antigos, ausência de redundância, baixa manutenção, dependência de único acesso logístico, contratos mal estruturados, seguros insuficientes e planos de contingência não testados
  • Capacidade de resposta: habilidade do porto de resistir, responder e se recuperar, por meio de engenharia, manutenção preventiva, sensores, monitoramento climático, protocolos de parada segura, plano de emergência, plano de continuidade operacional, governança, comunicação de crise e seguros adequados.O Fórum Econômico Mundial, por meio do Global Risks Report 2026, identifica os eventos climáticos extremos como o principal risco global no horizonte de dez anos. Essa constatação reforça que o risco climático não deve ser tratado apenas como uma preocupação ambiental ou futura, mas como um fator capaz de afetar investimentos, infraestrutura, produtividade, contratos, seguros e continuidade operacional.
  • A pergunta central para o setor portuário é direta: a infraestrutura portuária foi projetada para o clima do passado ou para o padrão climático que está se formando?

Essa reflexão exige uma mudança de abordagem. A gestão de riscos climáticos em portos precisa evoluir de uma postura reativa para uma visão preditiva e estruturada. Isso significa mapear ameaças, identificar ativos críticos, avaliar vulnerabilidades, simular cenários, mensurar impactos financeiros, revisar contratos e verificar se o programa de seguros responde aos riscos reais da operação.

O seguro, neste contexto, deixa de ser apenas uma exigência contratual e passa a integrar a estratégia de continuidade do negócio. Coberturas para danos materiais, eventos da natureza, perda de receita, despesas extraordinárias, responsabilidade civil e interrupção operacional precisam ser analisadas à luz dos cenários climáticos efetivamente aplicáveis ao terminal.

O porto resiliente será aquele capaz de transformar dados climáticos em decisão estratégica, prevenção em vantagem operacional e gestão de riscos em proteção efetiva da continuidade do negócio. Em um ambiente de crescente instabilidade climática, compreender a relação entre ameaça, exposição, vulnerabilidade e capacidade de resposta passa a ser uma condição para competitividade, segurança e permanência das operações portuárias.

Simone Ramos, Diretora de Portos e Logística da Lockton Brasil

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