A falta de seguros rurais adequados à realidade brasileira pode comprometer a produção agrícola do país, afirma a WTW, uma das maiores corretoras de seguros e consultorias de risco do mundo. A conclusão está alinhada com as informações contidas no Relatório Global de Riscos em Alimentos, Bebidas e Agricultura 2024 da WTW, publicado em maio deste ano.
“Atualmente, não existem seguros rurais adequados e customizados que atendam às necessidades dos produtores rurais brasileiros”, afirma James Hodge, head of Agribusiness & Construction. “Os modelos de seguros que adotamos, normalmente internacionais, não condizem com a nossa realidade e são restritivos, não contemplando todos os elementos da cadeia produtiva”, completa.
Atualmente, apenas 7% das áreas agrícolas brasileiras possuem algum tipo de cobertura de seguro rural. A maior parte está concentrada no Sul do Brasil, que já possui histórico de impactos climáticos. Contudo, mesmo nessa região a adesão é baixa, por conta dos altos custos.
“Existe uma questão técnica que impacta o preço do seguro rural. Os juros altos, a sinistralidade alta e a baixa adesão refletem diretamente no preço, mas, além disso, existe a falta de adequação do produto. Como os seguros disponíveis não atendem às necessidades dos produtores, isso cria um gap que encarece esse tripé e ‘espanta’ os produtores”, explica Hodge.
Para se ter uma ideia, o Brasil é o maior produtor do mundo de açaí, o quarto produtor mundial de mandioca e o sexto maior de cacau; e nenhuma dessas três culturas possuem modalidades de seguro rural que as cubra. Junto com elas estão melão, palmitos e muitas outras.
A falta de seguros rurais adequados à nossa realidade vai, inclusive, na contramão das práticas ESG. Por exemplo, a produção agroflorestal, que integra pasto, floresta e cultivos, com foco na produção sustentável, não possui nenhuma modalidade de seguro.
Um produtor rural, que adotar esse modelo, mas por qualquer infelicidade – como um raio em uma área seca – perderá boa parte de sua produção e não terá nenhuma forma de compensar esse prejuízo.
Outro ponto importante é que faltam modelos de seguros amplos, que contemplem diversos elos da cadeia produtiva, como fornecedores de insumos, transportadores, dentre outros.
“Muitas vezes pensamos nos seguros apenas para a safra, mas a produção depende de diversos ramos, que vão desde o vendedor de fertilizantes até o transportador. Faltam, também, modelos de seguros que contemplem todos os elos, afinal a interrupção da cadeia produtiva pode ser tão prejudicial quanto uma chuva extrema”, completa Hodge.
Preocupações da cadeia
O Relatório Global de Riscos em Alimentos, Bebidas e Agricultura 2024 da WTW, publicado em maio deste ano, que traz as informações sobre a cadeia de alimentos, mostrou que as preocupações dos produtores brasileiros estão alinhadas com o mercado global de alimentação.
De acordo com o estudo, 71% dos entrevistados colocaram as mudanças climáticas entre as principais preocupações, com riscos diretos aos negócios.
Em contrapartida, 29% dos entrevistados afirmaram que seus seguros incluem apenas condições meteorológicas extremas, não contemplando interrupção dos negócios, que é um fator importante para recuperação e resiliência financeira.
Além disso, o relatório mostrou que 35% dos entrevistados consideraram os riscos relativos à cadeia de suprimentos e à infraestrutura como uma das grandes preocupações de 2024.
Olhando especificamente para América Latina, 40% dos entrevistados consideraram questões logísticas e de armazenamentos como um dos grandes riscos para os próximos dois anos. Escassez de mão de obra foi apontada por 28% dos participantes.
Agência Virta
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