Para a presidente da Delphos, Elisabete Prado, a ascensão aos cargos de alta liderança ainda esbarra em fatores estruturais e culturais historicamente arraigados. “Do ponto de vista estrutural, parece haver um funil ao longo da carreira. As mulheres conseguem superar a barreira de entrada e avançam em número, mas encontram obstáculos na progressão para posições estratégicas, especialmente nas áreas tradicionalmente mais valorizadas para o C-Level, como negócios, finanças e operações”, lamenta a executiva, acrescentando que deve haver também menor exposição a redes de influência e a oportunidades críticas de visibilidade.
Além disso, no aspecto cultural, ainda persistem vieses — muitas vezes inconscientes — relacionados ao perfil de liderança esperado. Características frequentemente associadas a líderes homens ainda são mais reconhecidas como “padrão”, o que acaba tornando o processo de promoção menos equitativo.
Desafio
Para Elisabete Prado, permanece o desafio da conciliação entre responsabilidades profissionais e pessoais, que, embora venha evoluindo, ainda recai de forma desproporcional sobre as mulheres em muitos contextos, impactando sua disponibilidade percebida para posições de maior exigência. “No meu ponto de vista, não se trata de falta de competência ou preparo, mas de um conjunto de barreiras que precisam ser conscientemente enfrentadas pelas organizações”, assinala.
Agenda estratégica
Na Delphos, 31% do quadro total de colaboradores é formado por mulheres. A presidente da empresa afirma, contudo, que ainda há espaço para avançar e que isso deve ser encarado como uma agenda estratégica, “não apenas como uma pauta de diversidade”. Isso porque, a diversidade de perspectivas contribui para decisões mais equilibradas, melhora a capacidade de inovação e amplia a compreensão das necessidades de clientes e parceiros. “Mais do que uma questão de representatividade, a busca da equidade é fundamental para o fortalecimento institucional e para a competitividade no longo prazo. Além disso, ambientes mais diversos tendem a ser mais adaptáveis e resilientes”, observa.
Governança
Elisabete Prado diz ainda que a presença feminina nos níveis executivos tem impacto direto na qualidade da governança, na capacidade de inovação e na sustentabilidade das organizações. Do ponto de vista de governança, a diversidade contribui também para processos decisórios mais robustos, com maior pluralidade de análise e menor propensão a vieses. “Isso fortalece a gestão de riscos — um aspecto central no mercado segurador”, pontua a executiva.
Ela lembra que comparado a alguns segmentos mais tradicionais da economia, o setor de seguros tem avançado nessa questão, especialmente por meio de iniciativas institucionais, programas de desenvolvimento de lideranças femininas e maior visibilidade ao tema.
Mobilização
Há uma mobilização crescente de entidades e empresas no sentido de promover eventos, debates e criar ambientes mais inclusivos. “Esse movimento é importante porque ajuda a transformar uma pauta que antes era periférica em uma prioridade estratégica”, pontua. Por fim, a presidente da Delphos recomenda que, para um avanço mais consistente, é fundamental que as ações deixem de ser pontuais e passem a ser estruturadas e mensuráveis.
Compromisso
Entre as medidas importantes apontadas por ela constam o desenvolvimento intencional de lideranças femininas, com programas de mentoria, capacitação e exposição a projetos estratégicos; a revisão de critérios de promoção e sucessão, para mitigar vieses e garantir processos mais transparentes; a definição de metas claras de diversidade, acompanhadas por indicadores e responsabilização da alta liderança; e o fortalecimento de redes de apoio e patrocinadores internos, que ampliem a visibilidade e as oportunidades para mulheres. “Mais do que iniciativas isoladas, é necessário um compromisso consistente da liderança das organizações, com ações que efetivamente impactem a cultura e a forma como as decisões são tomadas”, conclui.
VTN Comunicação
Foto: Elisabete Prado, presidente da Delphos
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