O aumento da frequência de secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos climáticos extremos está transformando a maneira como o segmento de seguro rural avalia os riscos no agronegócio brasileiro. Além da localização da propriedade e do histórico de produtividade, seguradoras e resseguradoras passaram a considerar fatores ligados à gestão da operação, à prevenção de perdas e à adaptação às alterações no clima.
Entre 2022 e 2024, o Brasil registrou 67 eventos climáticos relevantes, que provocaram perdas estimadas em R$ 184 bilhões, de acordo com o Radar de Eventos Climáticos e de Seguros no Brasil, divulgado em 2025 pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e pela EY. Apesar da dimensão dos prejuízos, apenas 9% desse montante contava com proteção securitária.
O cenário ficou ainda mais desafiador após o bloqueio recente de R$ 461,7 milhões dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) em 2026, reduzindo o acesso ao seguro rural em um momento de maior exposição aos riscos climáticos.
Atualmente, estima-se que menos de 20% da área agrícola brasileira conte com algum tipo de proteção securitária, evidenciando a elevada lacuna de proteção existente no setor. E mais de 1.900 municípios brasileiros são considerados vulneráveis a eventos climáticos extremos, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Segundo Talita Ferrari, sócia e diretora comercial da Wiz Corporate, especializada em corretagem de seguros corporativos, as mudanças climáticas estão alterando a forma como o risco agrícola é calculado e precificado. “Hoje, duas propriedades rurais localizadas na mesma região podem apresentar níveis de exposição e risco completamente distintos. O que passou a fazer a diferença é a capacidade do produtor rural de identificar vulnerabilidades, investir em prevenção e implementar medidas de adaptação climática”, afirma.
Nos últimos cinco anos, seguradoras e resseguradoras ampliaram significativamente os critérios de análise utilizados na contratação do seguro rural. Entre os fatores que passaram a ganhar mais relevância estão a infraestrutura da propriedade, gestão hídrica, sistemas de irrigação, monitoramento climático, uso de tecnologia no campo, capacidade de armazenagem, práticas de manejo, diversificação produtiva e planejamento financeiro.
De acordo com Talita, propriedades que adotam programas estruturados de gestão de riscos apresentam maior capacidade de resiliência e menor severidade de perdas associadas a eventos climáticos extremos quando comparadas a operações menos preparadas. Além disso, a adoção de tecnologias de monitoramento climático, agricultura de precisão e sistemas avançados de manejo tem contribuído para ganhos médios de produtividade entre 10% e 20%, especialmente em culturas como soja, milho e algodão, além de aumentar a eficiência no uso de recursos hídricos e insumos agrícolas.
A executiva destaca que a gestão de riscos no agronegócio passou a ocupar um papel estratégico para garantir a sustentabilidade financeira da atividade rural. “O seguro rural continua sendo fundamental para proteger o fluxo de caixa do produtor diante de perdas provocadas por eventos climáticos extremos. Mas, cada vez mais, ele precisa estar integrado a uma estratégia ampla de prevenção e mitigação de impactos. O produtor que investe em resiliência, tecnologia e planejamento tende a ter maior capacidade de recuperação e mais sustentabilidade econômica no longo prazo”, explica.
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