As mulheres ocupam apenas 30% dos cargos de direção no mundo, um avanço considerado tímido nas últimas décadas, conforme aponta um relatório de 2025 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Esse cenário pode estar relacionado a um silenciamento progressivo e estrutural, ainda presente em diferentes esferas sociais e profissionais. Elas são metade da população do planeta, contudo, no dia primeiro de janeiro de 2025, ocupavam 27,2% das cadeiras nos parlamentos nacionais, conforme a ONU Mulheres.
Os números revelam um padrão histórico. A menor presença nos espaços de decisão não decorre de incapacidade individual, mas de um arranjo social que restringe tempo, renda e oportunidades. Isso impacta diretamente quem participa das decisões públicas e corporativas. Não se trata de coincidência, mas de estrutura. Quando você tem menos tempo, menos renda, menos presença nos espaços de decisão, você tem menos voz. Muitas mulheres foram empurradas para fora do palco institucional, o que altera o próprio exercício da fala.
Em 2001, pesquisa publicada no “Journal of Social Issues” mostrou que mulheres descritas como firmes e ambiciosas tendem a receber avaliações mais negativas do que homens com o mesmo comportamento. Elas eram vistas como menos simpáticas, enquanto eles eram percebidos como líderes naturais. A liderança exige firmeza, só que a firmeza feminina gera a penalização social. Esse paradoxo cria um custo de reputação que influencia escolhas profissionais e modos de se posicionar.
Pesquisas também indicam que vozes femininas com registro mais grave e arrastado no final das frases, o chamado “vocal fry”, foram avaliadas como menos competentes e confiáveis em ambientes de trabalho, com maior impacto sobre mulheres. Falar começa a ter um custo, e o cérebro aprende essa matemática, a reduzir, a moderar. Muitas vezes, o bloqueio não é técnico, mas resultado de experiências acumuladas desde cedo.
No Brasil, a baixa representação no parlamento reforça esse quadro. O país aparece entre as posições mais baixas do ranking global de presença feminina, segundo dados da ONU Mulheres Brasil com base na União Interparlamentar. A ausência nos espaços onde as leis são formuladas influencia prioridades públicas e a distribuição de recursos.
A comunicação não é apenas técnica vocal, dicção, postura, mas um reposicionamento interno combinado com estratégia externa. Ocupar espaço exige autorização interna, organização do pensamento e repertório consistente. O silenciamento tem custo financeiro. Treinar a nossa voz é um ativo. Posicionar-se não é excesso nem afronta, mas uma forma legítima de participação nos espaços onde decisões estruturais são tomadas.
Betini Comunicação
*Por Fabiana Bertotti, maior especialista em oratória do Brasil
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