No Dia Internacional das Mulheres, a celebração de direitos e conquistas precisa dividir espaço com uma pergunta incômoda: que preço elas estão pagando pelo jeito que a Inteligência Artificial está sendo usada hoje. Esse recurso foi apresentado como ferramenta de alívio, capaz de simplificar rotinas e ampliar eficiência. No cotidiano, porém, o efeito tem sido outro.
Um artigo de 2026 da Harvard Business Review, sob o título “AI Doesn’t Reduce Work – It Intensifies It” – A IA não reduz o trabalho – ela o intensifica, em português, mostra que a tecnologia não diminui a carga, mas intensificando o ritmo e o volume de demandas. Ao reduzir o esforço para iniciar tarefas, estimula a abertura de múltiplas frentes, acelera entregas e multiplica decisões. O andamento se adensa, enquanto a pausa encurta. A fronteira entre expediente e descanso se dissolve em notificações contínuas.
Esse ambiente mais veloz encontra uma realidade já desigual. Pesquisa publicada na “Nature Mental Health” em 2025 define “brain capital” como o conjunto de capacidades cognitivas, emocionais e sociais sustentadas por cérebros saudáveis, essenciais para trabalho e participação social. O estudo aponta que mulheres vivem, em média, nove anos a mais em pior estado de saúde do que homens, sobretudo por condições que afetam o cérebro, como depressão, ansiedade, enxaqueca e demências.
Elas, portanto, ingressam na economia digital com um capital cerebral valioso, mas mais vulnerável. Carregam maior incidência de doenças que impactam o foco, memória e energia. Ainda assim, espera-se adaptação irrestrita a ferramentas que comprimem prazos e ampliam estímulos.
Dados do World Economic Forum, também de 2025, reforçam o quadro, com mulheres relatando níveis mais altos de exaustão e piores indicadores de saúde mental. A origem não está em fragilidade individual, mas na sobreposição de jornadas, com emprego formal, tarefas domésticas e cuidado de outras pessoas. Trata-se de uma carga emocional e cognitiva permanente.
Quando essa sobrecarga estrutural se combina com sistemas que intensificam o fluxo de demandas, o resultado é previsível. O capital cerebral feminino é esticado como se fosse inesgotável. Se a IA permite produzir mais em menos tempo, cresce a expectativa de desempenho constante. O “ganho” tecnológico se converte em nova camada de pressão.
A neurologista Antonella Santuccione Chadha estima que reduzir a lacuna de saúde cerebral das mulheres poderia gerar até 250 bilhões de dólares por ano à economia global. O dado revela que proteger esse capital não é apenas questão sanitária ou social, mas também econômica. Há valor concreto sendo desperdiçado quando o esgotamento se torna regra.
Neste 8 de março, não basta incentivar que mulheres se adaptem melhor à inteligência artificial. A discussão central é outra, chega ao ponto de que nenhuma transformação pode ser considerada avanço se for construída sobre desgaste silencioso. Inovação responsável exige ambientes que respeitem limites cognitivos, distribuam responsabilidades e utilizem tecnologia para aliviar, não para explorar.
Defender tempo, atenção e saúde mental das mulheres é reconhecer que boa parte da economia e do cuidado no mundo depende desse capital cerebral. Justiça de gênero, na era da IA, significa impedir que a eficiência digital se sustente à custa de exaustão invisível.
Betini Comunicação
*Por Clara Cecchini, especialista em aprendizagem e inovação; e palestrante.
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