A indústria frigorífica brasileira desempenha um papel estratégico na matriz econômica do país, atuando de forma abrangente nos segmentos de carne bovina, suína e de aves e posicionando-se não apenas como principal fornecedora para o mercado interno, mas também como protagonista nas exportações do agronegócio. Com presença consolidada em mais de 150 países, a carne brasileira gera bilhões de dólares em divisas todos os anos, impulsiona setores logísticos, industriais e de insumos e é responsável pela geração direta de centenas de milhares de empregos em diferentes regiões do território nacional.
Mais do que os números expressivos, o setor frigorífico exerce um papel estruturante em inúmeros municípios do interior, onde suas plantas operam como polos de desenvolvimento regional, promovendo emprego, renda, infraestrutura e a dinamização de cadeias produtivas adjacentes. Trata-se de uma operação altamente integrada, que abrange desde a recepção dos animais até o processamento, a refrigeração e a distribuição, exigindo investimentos constantes em tecnologia, controle sanitário e logística, a fim de garantir competitividade, conformidade regulatória e segurança alimentar.
Nesse contexto, a proteção patrimonial das unidades industriais é essencial para a continuidade operacional, a segurança alimentar e a estabilidade da cadeia de suprimentos. Dessa forma, o seguro e o resseguro possuem um papel crucial para mitigação e transferência de riscos deste importante segmento nacional bem como na assistência na gestão e no gerenciamento dos riscos.
Riscos inerentes à atividade
As instalações industriais dos frigoríficos são ambientes complexos, projetados para operação contínua sob rigorosos padrões sanitários e de conservação. Do ponto de vista securitário, essas características ampliam significativamente a exposição a riscos patrimoniais, com grande destaque para o risco de incêndio.
Entre as principais vulnerabilidades está o uso intensivo de isopainéis nas câmaras frias, túneis de congelamento e áreas de processamento. Compostos por chapas metálicas com núcleo isolante, geralmente PUR, PIR ou EPS, esses materiais oferecem ótimo desempenho térmico, acústico e de assepsia, mas apresentam comportamento crítico em caso de ignição, favorecendo a rápida propagação de chamas e a emissão de fumaça tóxica. A classificação de “retardante à chama” em alguns modelos pode induzir a uma falsa sensação de segurança, embora, na prática, continuem sendo materiais combustíveis. Para uma estrutura mais segura, deve-se buscar a utilização de painéis com núcleo de lã de rocha ou lã de vidro, que são considerados incombustíveis.
As instalações elétricas merecem atenção especial no contexto frigorífico, especialmente em unidades mais antigas ou que passaram por ampliações sucessivas. Para garantir a segurança e a continuidade operacional, é fundamental que os sistemas elétricos sejam dimensionados de forma compatível com a carga instalada, com ventilação adequada dos painéis, manutenção periódica dos condutores e proteção contra sobrecarga. Ambientes frios, típicos da operação frigorífica, podem dificultar a detecção precoce de falhas ou aquecimentos anormais, tornando ainda mais importante o uso de sistemas de monitoramento e sensores térmicos. Quando esses cuidados são integrados a boas práticas de compartimentação e ao uso de materiais com menor inflamabilidade, como painéis com núcleo incombustível, há uma melhora significativa na qualidade do risco.
Outros fatores críticos incluem a realização de manutenções que envolvem trabalho a quente, como soldas e lixamentos, que, sem controle rigoroso, podem funcionar como fontes de ignição acidental. Soma-se a isso o uso de amônia como fluido refrigerante, um gás tóxico e inflamável sob determinadas condições, cujo vazamento representa sério risco à integridade física dos trabalhadores e à contenção de eventos maiores. Por fim, o entreforro é uma área que demanda atenção do segurado, pois pode concentrar cabeamentos, sistemas auxiliares e materiais combustíveis, além de favorecer o acúmulo de poeira. Sem inspeção adequada e medidas de proteção, esse espaço pode atuar como ponto de propagação de chamas, o que gera um agravamento do risco.
Nesse cenário, torna-se essencial o monitoramento contínuo das condições construtivas, elétricas e operacionais, com foco na prevenção de incêndios e na contenção de substâncias perigosas. A atuação integrada entre seguradoras, resseguradoras, engenheiros de risco e equipes de manutenção é decisiva para mitigar essas exposições de forma eficaz.
Desafios de padronização
Empresas frigoríficas costumam operar dezenas de unidades espalhadas por diferentes estados e regiões. Cada planta possui características construtivas, operacionais e culturais próprias, o que dificulta a uniformização de sistemas de segurança, rotinas de manutenção e procedimentos de prevenção. Padronizar medidas de proteção contra incêndios, planos de contingência, protocolos de emergência e cronogramas de manutenção é um processo contínuo, desafiador e dispendioso, porém essencial para uma gestão de risco adequada. Essa complexidade impõe exigências adicionais aos subscritores, que muitas vezes lidam com perfis de risco variados e com informações ainda em fase de consolidação. Esse cenário torna a análise técnica mais desafiadora e pode demandar ajustes nas condições contratuais, como franquias diferenciadas ou cláusulas que considerem a adequação progressiva às recomendações de engenharia.
A evolução da relação seguradora–segurado
A ocorrência de sinistros severos no setor frigorífico nos últimos anos, incluindo incêndios de grande proporção, explosões em sistemas de refrigeração e paralisações prolongadas, provocou um endurecimento significativo nas condições contratuais do seguro patrimonial. Esse novo cenário trouxe maior rigor técnico à subscrição e reforçou a necessidade de uma postura ativa dos segurados na gestão de riscos.
Nesse contexto, a corresponsabilidade passou a ser elemento central na manutenção da confiança entre as partes. A participação efetiva dos segurados na implementação de melhorias, no atendimento a recomendações técnicas e na prevenção de perdas é hoje fator decisivo para garantir acesso a condições adequadas de cobertura.
A evolução dessa relação exige uma mudança de abordagem, orientada por colaboração técnica e transparência. Entre os principais caminhos para consolidar essa parceria estratégica, destacam-se:
- O engajamento contínuo entre subscritores e equipes de engenharia de risco das empresas, favorecendo a troca de conhecimento e a compreensão do ambiente operacional;
- O cumprimento programado das recomendações, com prazos definidos em comum acordo e foco prioritário nos pontos críticos;
- O compartilhamento sistemático de dados operacionais, históricos de manutenção e indicadores de performance, promovendo maior previsibilidade e robustez na análise de risco;
- Atuação estruturada na regulação de sinistros, com base em informações atualizadas e consistentes por parte de todos os envolvidos, favorecendo soluções técnicas adequadas, agilidade nas decisões e uma apuração justa dos eventos.
Considerações finais
O seguro de Property para frigoríficos de grande porte é uma operação complexa, sensível e estratégica para a economia brasileira. Proteger esses ativos significa preservar uma cadeia produtiva essencial ao abastecimento alimentar, à geração de divisas e à estabilidade do setor agroindustrial. A sustentabilidade desse modelo depende da construção de confiança mútua, da melhoria contínua na gestão de riscos e do compromisso conjunto com a previsibilidade técnica, a disciplina operacional e a transparência entre os agentes envolvidos.
Assessoria de Imprensa IRB(Re)
*Por Ricardo Bouzas, Gerente de Property do IRB(Re)
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