Como cirurgião pediátrico, uma pergunta tem me acompanhado cada vez mais dentro do consultório: será que a preparação de uma criança para uma cirurgia começa, de fato, na consulta pré-operatória?
A prática consagrada é conhecida. Pedimos exames, encaminhamos para avaliação anestésica e explicamos o procedimento à família na semana anterior à internação. É um protocolo sólido, testado e indispensável. Mas, depois de anos operando crianças, percebi que existe uma camada de preparo ainda mais decisiva — uma que não cabe em uma única consulta porque começa meses, e às vezes anos, antes de a criança pisar no centro cirúrgico.
Toda cirurgia é, fisiologicamente, uma agressão controlada. Após o corte, o organismo precisa cicatrizar tecidos, sustentar as funções cardiovascular e respiratória sob estresse, conter o risco de infecção e reconstruir a massa muscular perdida no pós-operatório. Nada disso começa na mesa de cirurgia; é o resultado direto da reserva fisiológica que a criança já carrega ao entrar no hospital.
Crianças que praticam atividades físicas com regularidade e têm uma alimentação equilibrada não são apenas “mais fortes” no sentido coloquial. Elas chegam ao procedimento com melhor capacidade cardiovascular, maior reserva muscular e uma resposta imunológica mais eficiente — três variáveis que se traduzem em recuperações mais rápidas e com menos complicações.
O caminho inverso também é real e preocupante, sobretudo diante do avanço do sedentarismo infantil. Maus hábitos alimentares e a inatividade física corroem essa reserva ao longo dos anos, deixando o organismo com menos margem de segurança para absorver o estresse cirúrgico.
Embora o conceito de preabilitação — preparar o paciente física e nutricionalmente antes da cirurgia, e não apenas reabilitá-lo depois — seja mais estudado em adultos, seus fundamentos fisiológicos aplicam-se com igual ou maior relevância a organismos em desenvolvimento.
Se ampliarmos esse conceito, o preparo pré-operatório deixa de se restringir à semana anterior ao procedimento. Ele começa na quadra, na piscina, no parque, na bicicleta e à mesa das refeições em família. Isso também transforma o papel do médico: cada consulta pediátrica passa a ser uma oportunidade de educação em saúde, estimulando hábitos que beneficiarão não apenas uma eventual cirurgia, mas a trajetória de vida daquela criança.
No fim das contas, preparar uma criança para uma cirurgia pode significar, na prática, preparar uma vida inteira para ser mais saudável, usando o procedimento como ponto de partida para lembrar o que deveria ser óbvio: corpo ativo e bem nutrido não é luxo, é reserva de saúde.
TREE Comunicação
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