{"id":83738,"date":"2026-09-24T12:43:11","date_gmt":"2026-09-24T15:43:11","guid":{"rendered":"https:\/\/insurancecorp.com.br\/pt\/?p=83738"},"modified":"2026-09-24T12:43:11","modified_gmt":"2026-09-24T15:43:11","slug":"entre-documentos-e-testemunhos-a-importancia-da-audiencia-de-instrucao-nas-acoes-regressivas-das-seguradoras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/insurancecorp.com.br\/pt\/2026\/09\/24\/entre-documentos-e-testemunhos-a-importancia-da-audiencia-de-instrucao-nas-acoes-regressivas-das-seguradoras\/","title":{"rendered":"Entre documentos e testemunhos: a import\u00e2ncia da audi\u00eancia de instru\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es regressivas das seguradoras"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Nos seguros de dano, a regra da sub-roga\u00e7\u00e3o \u00e9 simples na teoria: ao pagar a indeniza\u00e7\u00e3o, a seguradora assume o direito de cobrar o preju\u00edzo de quem causou o problema. Com a entrada em vigor da Lei n\u00ba 15.040\/2024 (Art. 94), este mecanismo ganhou contornos ainda mais claros no pa\u00eds, garantindo o direito de regresso sem preju\u00edzo de eventuais cobran\u00e7as complementares que o pr\u00f3prio segurado precise fazer ao causador do dano.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, reaver esse dinheiro exige muito mais do que apresentar notas fiscais ou o comprovante de PIX da indeniza\u00e7\u00e3o paga. Para a Justi\u00e7a, demonstrar que o preju\u00edzo existiu \u00e9 apenas o primeiro passo. O verdadeiro xadrez das a\u00e7\u00f5es regressivas est\u00e1 em provar, sem margem para d\u00favidas, quem realmente deu causa ao acidente e como sua atitude levou \u00e0quele resultado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Essa distin\u00e7\u00e3o ganha import\u00e2ncia nas a\u00e7\u00f5es regressivas decorrentes de acidentes de tr\u00e2nsito. Nesses processos, \u00e9 comum que a seguradora disponha de documenta\u00e7\u00e3o capaz de demonstrar a exist\u00eancia do sinistro e a extens\u00e3o dos danos: boletim de ocorr\u00eancia, fotografias, or\u00e7amentos, notas fiscais, laudos, documentos do ve\u00edculo, relat\u00f3rios de regula\u00e7\u00e3o e comprovantes de pagamento. Esse conjunto probat\u00f3rio possui evidente relev\u00e2ncia. Contudo, a apresenta\u00e7\u00e3o de provas documentais que atestem o preju\u00edzo n\u00e3o garante que as circunst\u00e2ncias exatas e o desenrolar dos fatos estejam devidamente elucidados.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 poss\u00edvel, por exemplo, que as fotografias demonstrem com precis\u00e3o os pontos de impacto dos ve\u00edculos, mas n\u00e3o indiquem qual deles realizou determinada manobra. O or\u00e7amento ou a nota fiscal podem demonstrar o custo da repara\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o esclarecer se o acidente ocorreu em raz\u00e3o de uma mudan\u00e7a indevida de faixa, de uma invas\u00e3o de prefer\u00eancia, de uma frenagem inesperada ou de uma invas\u00e3o da contram\u00e3o. O boletim de ocorr\u00eancia, embora relevante para a reconstru\u00e7\u00e3o inicial dos fatos, tamb\u00e9m pode conter apenas as vers\u00f5es apresentadas pelos envolvidos, sem elementos suficientes para solucionar eventual diverg\u00eancia entre elas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Surge, ent\u00e3o, uma quest\u00e3o, como deve ser solucionada a a\u00e7\u00e3o regressiva quando o preju\u00edzo est\u00e1 documentalmente demonstrado, mas permanece controvertida a responsabilidade pelo acidente?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 justamente nesse cen\u00e1rio que a prova oral pode assumir papel decisivo. A audi\u00eancia de instru\u00e7\u00e3o permite que as partes e as testemunhas sejam ouvidas sobre as circunst\u00e2ncias que antecederam e envolveram o sinistro, possibilitando ao julgador obter informa\u00e7\u00f5es que muitas vezes n\u00e3o est\u00e3o registradas nos documentos juntados aos autos, como a posi\u00e7\u00e3o dos ve\u00edculos, o sentido de circula\u00e7\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o de determinada manobra, a exist\u00eancia de sinaliza\u00e7\u00e3o, a velocidade aproximada, a ocorr\u00eancia de frenagem ou a conduta adotada imediatamente antes da colis\u00e3o s\u00e3o elementos que podem contribuir decisivamente para a reconstru\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica do acidente.<\/p>\n<p align=\"justify\">A import\u00e2ncia da audi\u00eancia, portanto, n\u00e3o decorre de uma presun\u00e7\u00e3o de que a prova testemunhal seja superior \u00e0 documental, mas da necessidade de utilizar o meio probat\u00f3rio mais adequado \u00e0 natureza da controv\u00e9rsia. Se a discuss\u00e3o \u00e9 documental e os elementos j\u00e1 produzidos permitem ao julgador formar convic\u00e7\u00e3o segura, a realiza\u00e7\u00e3o de audi\u00eancia pode ser desnecess\u00e1ria. O pr\u00f3prio Superior Tribunal de Justi\u00e7a possui entendimento consolidado de que n\u00e3o configura cerceamento de defesa o julgamento antecipado quando os elementos documentais s\u00e3o suficientes para solucionar a controv\u00e9rsia.<\/p>\n<p align=\"justify\">O cen\u00e1rio muda quando a controv\u00e9rsia central \u00e9 essencialmente f\u00e1tica e a prova oral requerida possui pertin\u00eancia direta com os fatos que precisam ser esclarecidos. Nessa hip\u00f3tese, o indeferimento da prova n\u00e3o pode ser justificado apenas pela exist\u00eancia de documentos nos autos. \u00c9 necess\u00e1rio verificar se esses documentos s\u00e3o, de fato, suficientes para reconstruir a din\u00e2mica do acidente e permitir uma conclus\u00e3o segura acerca da responsabilidade pelo evento.<\/p>\n<p align=\"justify\">Contudo, n\u00e3o se trata de defender que a seguradora ou o terceiro possuam direito autom\u00e1tico \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de audi\u00eancia em toda demanda regressiva. O juiz, como destinat\u00e1rio da prova, possui compet\u00eancia para avaliar sua necessidade e indeferir dilig\u00eancias in\u00fateis ou meramente protelat\u00f3rias, conforme estabelece o art. 370 do C\u00f3digo de Processo Civil. A quest\u00e3o reside em outra perspectiva: quando a prova requerida \u00e9 pertinente, possui potencial concreto para esclarecer a controv\u00e9rsia e o julgamento acaba sendo desfavor\u00e1vel justamente em raz\u00e3o da aus\u00eancia dessa prova, a supress\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o pode configurar cerceamento de defesa.<\/p>\n<p align=\"justify\">O Superior Tribunal de Justi\u00e7a j\u00e1 reconheceu essa situa\u00e7\u00e3o, entendendo que h\u00e1 cerceamento quando a parte requerer oportunamente e de maneira justificada a produ\u00e7\u00e3o de prova oral ou pericial destinada \u00e0 comprova\u00e7\u00e3o de suas alega\u00e7\u00f5es, a prova \u00e9 indeferida e, posteriormente, o pedido \u00e9 julgado improcedente por falta de provas. A an\u00e1lise, entretanto, deve ser realizada de acordo com as circunst\u00e2ncias concretas de cada processo, considerando a pertin\u00eancia e a efetiva necessidade da prova requerida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, deve ser observada a correspond\u00eancia entre a prova necess\u00e1ria e o fato controvertido. Se a controv\u00e9rsia diz respeito \u00e0 din\u00e2mica de um acidente e essa din\u00e2mica n\u00e3o pode ser adequadamente reconstru\u00edda pelos documentos existentes, a prova oral deixa de ser uma simples faculdade processual e passa a representar importante instrumento para a forma\u00e7\u00e3o do convencimento judicial.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 justamente nesse momento que a audi\u00eancia de instru\u00e7\u00e3o pode aproximar o processo da realidade dos fatos. O depoimento dos envolvidos e das testemunhas permite confrontar as diferentes vers\u00f5es apresentadas, contextualizar os documentos existentes e esclarecer circunst\u00e2ncias que n\u00e3o foram captadas no momento do acidente. N\u00e3o se trata de substituir a prova documental, mas de complement\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 nessa diferen\u00e7a entre a comprova\u00e7\u00e3o do dano e a reconstru\u00e7\u00e3o de sua causa que reside a import\u00e2ncia da audi\u00eancia de instru\u00e7\u00e3o. Quando necess\u00e1ria, ela permite que a prova seja produzida de forma mais ampla, que vers\u00f5es conflitantes sejam confrontadas e que circunst\u00e2ncias relevantes sejam esclarecidas perante o julgador. A instru\u00e7\u00e3o oral, portanto, n\u00e3o representa mero prolongamento do processo, mas constitui etapa essencial para que a decis\u00e3o seja constru\u00edda sobre uma compreens\u00e3o efetiva da din\u00e2mica do sinistro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nesse contexto, documentos, testemunhos e demais elementos de prova ganham import\u00e2ncia na reconstru\u00e7\u00e3o dos fatos. A an\u00e1lise desse conjunto confronta vers\u00f5es divergentes e esclarece as circunst\u00e2ncias do ocorrido, contribuindo \u00e0 defini\u00e7\u00e3o da responsabilidade pelo dano e \u00e0 compreens\u00e3o de como e por quem ele foi causado.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>B36<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos seguros de dano, a regra da sub-roga\u00e7\u00e3o \u00e9 simples na teoria: ao pagar a indeniza\u00e7\u00e3o, a seguradora assume o direito de cobrar o preju\u00edzo de quem causou o problema. 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