{"id":81603,"date":"2026-07-24T14:49:01","date_gmt":"2026-07-24T17:49:01","guid":{"rendered":"https:\/\/insurancecorp.com.br\/pt\/?p=81603"},"modified":"2026-07-24T14:49:01","modified_gmt":"2026-07-24T17:49:01","slug":"a-expansao-financeira-e-institucional-do-crime-organizado-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/insurancecorp.com.br\/pt\/2026\/07\/24\/a-expansao-financeira-e-institucional-do-crime-organizado-no-brasil\/","title":{"rendered":"A expans\u00e3o financeira e institucional do crime organizado no Brasil"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Ao longo de d\u00e9cadas de omiss\u00e3o e toler\u00e2ncia institucional, o crime organizado deixou de ser um problema perif\u00e9rico para se consolidar como um agente econ\u00f4mico paralelo \u2014 com &#8220;habeas corpus&#8221; de fato para expandir sua atua\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds, infiltrar-se na economia formal e disputar espa\u00e7o em mercados regulados.<\/p>\n<p align=\"justify\">O resultado \u00e9 um impacto sist\u00eamico: setores inteiros passaram a operar sob influ\u00eancia direta ou indireta de fac\u00e7\u00f5es, que hoje imp\u00f5em um custo econ\u00f4mico estimado em at\u00e9 11% do PIB brasileiro \u2014 algo entre R$ 1,3 trilh\u00e3o e R$ 1,5 trilh\u00e3o. Um &#8220;imposto invis\u00edvel&#8221; que corr\u00f3i competitividade, afasta investimentos, desorganiza cadeias produtivas e compromete o desenvolvimento de territ\u00f3rios inteiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">A chamada &#8220;mancha criminal&#8221; se espalha em m\u00faltiplas dimens\u00f5es: eleva custos operacionais, reduz investimentos em \u00e1reas cr\u00edticas, pressiona o mercado imobili\u00e1rio em regi\u00f5es violentas, altera rotas log\u00edsticas e aprofunda a informalidade. O efeito combinado \u00e9 a perda de produtividade e o travamento da circula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em \u00e1reas estrat\u00e9gicas do Pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">Especialistas alertam que n\u00e3o h\u00e1 uma &#8220;bala de prata&#8221;, uma solu\u00e7\u00e3o simples ou imediata para conter a expans\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es e suas engrenagens financeiras. Ainda assim, refor\u00e7am que a ina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma alternativa. O crime \u00e9 comparado a uma doen\u00e7a que n\u00e3o foi tratada no in\u00edcio, e hoje coloca o Pa\u00eds diante de uma estrutura profundamente enraizada.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Quando se tem dinheiro, \u00e9 poss\u00edvel criar estrutura de recursos humanos, corromper agentes p\u00fablicos e expandir dom\u00ednio territorial. O Brasil ignorou durante d\u00e9cadas a necessidade de atacar o fluxo financeiro das fac\u00e7\u00f5es. Compreendeu o fen\u00f4meno, mas n\u00e3o agiu. E n\u00e3o agiu por omiss\u00e3o ou coniv\u00eancia&#8221;, assinala Paulo Storani, antrop\u00f3logo e ex-capit\u00e3o do Bope.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na mesma linha, a antrop\u00f3loga e cientista pol\u00edtica Jacqueline Muniz destaca que o desafio n\u00e3o est\u00e1 em eliminar completamente o crime organizado \u2014 algo irrealista \u2014, mas em reduzir sua capacidade de acumula\u00e7\u00e3o, limitar sua captura institucional e impedir que se converta em uma forma de governan\u00e7a sobre territ\u00f3rios e popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para ela, o fen\u00f4meno deve ser compreendido como uma engrenagem pol\u00edtico-econ\u00f4mica complexa, que articula mercados legais e ilegais, agentes p\u00fablicos e privados e economias formais e informais \u2014 e ainda tem mecanismos pr\u00f3prios de regula\u00e7\u00e3o e coer\u00e7\u00e3o. \u00c9 justamente essa capacidade de operar em diferentes regimes de legalidade que explica sua resili\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;A sobreviv\u00eancia das fac\u00e7\u00f5es depende de tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas: diversifica\u00e7\u00e3o de commodities ilegais, enraizamento territorial-comunit\u00e1rio e rela\u00e7\u00f5es est\u00e1veis com segmentos do Estado. Sem esses elementos n\u00e3o h\u00e1 escala, continuidade nem capacidade de adapta\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para Storani, isso significa que o Pa\u00eds atingiu um est\u00e1gio avan\u00e7ado de consolida\u00e7\u00e3o da criminalidade organizada, cuja revers\u00e3o exigir\u00e1 d\u00e9cadas de pol\u00edticas p\u00fablicas permanentes, integra\u00e7\u00e3o institucional e enfrentamento financeiro das fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nesse novo est\u00e1gio, especialistas apontam que o fen\u00f4meno j\u00e1 n\u00e3o pode ser tratado apenas como tema de seguran\u00e7a p\u00fablica, mas como um sistema econ\u00f4mico h\u00edbrido, que interage com mercados formais, distorce cadeias produtivas e pressiona a capacidade regulat\u00f3ria do Estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Apesar dos avan\u00e7os em legisla\u00e7\u00e3o e das sucessivas opera\u00e7\u00f5es policiais, autoridades e analistas reconhecem que a sofistica\u00e7\u00e3o dos esquemas de lavagem de dinheiro e a engenharia financeira das organiza\u00e7\u00f5es criminosas evolu\u00edram em ritmo superior ao da resposta institucional. O resultado \u00e9 um descompasso crescente entre a complexidade do crime e a capacidade de fiscaliza\u00e7\u00e3o, investiga\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4 align=\"justify\">CARBONO OCULTO<\/h4>\n<p align=\"justify\">Um dos exemplos mais recentes dessa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 a Opera\u00e7\u00e3o Carbono Oculto, conduzida em conjunto pela Pol\u00edcia Federal, Receita Federal e Minist\u00e9rios P\u00fablicos, que revelou um esquema bilion\u00e1rio associado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).<\/p>\n<p align=\"justify\">A investiga\u00e7\u00e3o identificou uma estrutura que envolvia mais de mil postos de combust\u00edveis, empresas de fachada e operadores financeiros, al\u00e9m da utiliza\u00e7\u00e3o de fundos de investimento, institui\u00e7\u00f5es de pagamento e estruturas sofisticadas do mercado financeiro para lavagem de dinheiro oriundo do tr\u00e1fico e de outras atividades il\u00edcitas.<\/p>\n<p align=\"justify\">O caso evidencia um ponto central do debate atual: a transi\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es essencialmente territoriais para agentes econ\u00f4micos altamente adapt\u00e1veis, capazes de transitar entre o mundo informal e o sistema financeiro regulado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para o economista Carlos Thadeu de Freitas, &#8220;parte dessa expans\u00e3o est\u00e1 relacionada a fragilidades regulat\u00f3rias e institucionais no sistema financeiro brasileiro&#8221;. Segundo ele, a r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o das fintechs ocorreu em um ambiente de baixa coordena\u00e7\u00e3o entre o Banco Central e a Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios, o que teria aberto brechas para opera\u00e7\u00f5es com menor rastreabilidade da origem dos recursos. &#8220;Algu\u00e9m tem que exigir a origem do recurso&#8221;, afirmou, ao defender maior integra\u00e7\u00e3o entre os \u00f3rg\u00e3os reguladores e refor\u00e7o nos mecanismos de controle.<\/p>\n<p align=\"justify\">O economista tamb\u00e9m destaca que o problema n\u00e3o se limita \u00e0 regula\u00e7\u00e3o, mas envolve capacidade operacional. O d\u00e9ficit de servidores especializados em \u00e1reas como fiscaliza\u00e7\u00e3o financeira, an\u00e1lise de risco e intelig\u00eancia regulat\u00f3ria teria reduzido a capacidade de monitoramento do sistema como um todo, especialmente em um ambiente de digitaliza\u00e7\u00e3o acelerada e aumento da complexidade das transa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h4 align=\"justify\">EFEITOS DA EXPANS\u00c3O<\/h4>\n<p align=\"justify\">Na avalia\u00e7\u00e3o de entidades do setor segurador, os efeitos dessa expans\u00e3o j\u00e1 s\u00e3o sentidos diretamente na economia formal. Segundo a CNseg, o avan\u00e7o do crime organizado eleva custos operacionais, aumenta a frequ\u00eancia de indeniza\u00e7\u00f5es e pressiona o pre\u00e7o das coberturas, especialmente em \u00e1reas mais expostas \u00e0 criminalidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">O impacto n\u00e3o se limita ao setor de seguros: a escalada de fraudes, roubos e crimes digitais amplia a demanda por solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, ao mesmo tempo em que restringe o acesso \u00e0 prote\u00e7\u00e3o em determinadas regi\u00f5es, aprofundando desigualdades econ\u00f4micas e territoriais.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dados da CPI do Crime Organizado do Senado refor\u00e7am o diagn\u00f3stico de fragilidade institucional. O levantamento aponta d\u00e9ficits significativos de pessoal na Pol\u00edcia Federal, na Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia (ABIN), na Receita Federal e no Banco Central, comprometendo a capacidade de investiga\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia e regula\u00e7\u00e3o. O documento tamb\u00e9m destaca que a chamada &#8220;descapitaliza\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de controle e intelig\u00eancia&#8221; cria um efeito paradoxal: ao enfraquecer o Estado, amplia-se o espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nesse cen\u00e1rio, o sistema prisional continua desempenhando papel central na reorganiza\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es. De acordo com a CPI, existem hoje cerca de 90 fac\u00e7\u00f5es criminosas ativas no Pa\u00eds, com diferentes n\u00edveis de atua\u00e7\u00e3o regional, nacional e transnacional. O PCC e o Comando Vermelho est\u00e3o presentes em 24 estados e no Distrito Federal e j\u00e1 operam em m\u00faltiplas frentes econ\u00f4micas e log\u00edsticas, com impactos diretos sobre o com\u00e9rcio ilegal, a seguran\u00e7a urbana e a governan\u00e7a de territ\u00f3rios vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">A expans\u00e3o dessas organiza\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m alcan\u00e7a o plano internacional, com implica\u00e7\u00f5es crescentes sobre regras de compliance e rela\u00e7\u00f5es comerciais. Em determinados contextos, opera\u00e7\u00f5es envolvendo grupos brasileiros passaram a ser observadas sob o prisma de riscos transnacionais, ampliando a complexidade regulat\u00f3ria para empresas expostas a cadeias globais de valor.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para o antrop\u00f3logo Storani, a evolu\u00e7\u00e3o dessas organiza\u00e7\u00f5es \u00e9 resultado de um processo hist\u00f3rico que come\u00e7a no sistema prisional. Segundo ele, o PCC surgiu inicialmente como uma estrutura de prote\u00e7\u00e3o entre detentos, mas evoluiu para um modelo de organiza\u00e7\u00e3o altamente estruturado. &#8220;O PCC virou uma esp\u00e9cie de franquia criminosa. A l\u00f3gica \u00e9 simples: o criminoso contribui financeiramente e, quando for preso, ter\u00e1 prote\u00e7\u00e3o, advogado e assist\u00eancia para a fam\u00edlia&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p align=\"justify\">Storani explica que o Comando Vermelho, por sua vez, ganhou for\u00e7a a partir da expans\u00e3o do mercado de coca\u00edna nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, quando a queda de pre\u00e7os ampliou o consumo e criou uma demanda reprimida significativa. A partir desse processo, as fac\u00e7\u00f5es passaram a se estruturar de forma mais complexa e diversificada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Com o tempo, segundo ele, o dom\u00ednio territorial deixou de se limitar ao tr\u00e1fico de drogas e passou a incorporar um modelo de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mais amplo, inspirado em din\u00e2micas observadas em mil\u00edcias urbanas. &#8220;Hoje, muitas vezes, a diferen\u00e7a entre mil\u00edcia e tr\u00e1fico restringe-se apenas a quem vende mais droga&#8221;, disse.<\/p>\n<h4>SERVI\u00c7OS ESSENCIAIS<\/h4>\n<p align=\"justify\">Esse modelo se consolidou na cobran\u00e7a de servi\u00e7os essenciais em \u00e1reas sob influ\u00eancia das fac\u00e7\u00f5es, como internet, g\u00e1s, transporte alternativo e com\u00e9rcio local. Na pr\u00e1tica, essas atividades passaram a compor uma base est\u00e1vel de arrecada\u00e7\u00e3o, ampliando a capacidade de reinvestimento das organiza\u00e7\u00f5es em armamentos, corrup\u00e7\u00e3o institucional e expans\u00e3o territorial.<\/p>\n<p align=\"justify\">O resultado \u00e9 um ecossistema criminoso altamente integrado, que opera simultaneamente em mercados il\u00edcitos tradicionais e em setores formais da economia. Entre os segmentos mais sens\u00edveis est\u00e3o combust\u00edveis, bebidas, apostas, fintechs, criptoativos e servi\u00e7os p\u00fablicos terceirizados, onde h\u00e1 alta circula\u00e7\u00e3o de recursos e maior dificuldade de rastreamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">Estudos de institui\u00e7\u00f5es como o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica e o Instituto Esfera indicam padr\u00f5es recorrentes dessa infiltra\u00e7\u00e3o: empresas com faturamento incompat\u00edvel com sua estrutura, concentra\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos CNPJs em um mesmo endere\u00e7o, uso de contas digitais e ativos virtuais para oculta\u00e7\u00e3o de benefici\u00e1rios finais e explora\u00e7\u00e3o de fragilidades em processos de licita\u00e7\u00e3o e contrata\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p align=\"justify\">No Rio de Janeiro, esse modelo atinge um grau ainda mais avan\u00e7ado de consolida\u00e7\u00e3o. O estado \u00e9 frequentemente citado como laborat\u00f3rio de din\u00e2micas que depois s\u00e3o replicadas em outras regi\u00f5es do Pa\u00eds, incluindo o controle de servi\u00e7os essenciais em comunidades.<\/p>\n<p align=\"justify\">Essa estrutura complexa amplia a capacidade de gera\u00e7\u00e3o e lavagem de recursos, ao mesmo tempo em que dificulta o trabalho de investiga\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o, especialmente frente \u00e0 coopta\u00e7\u00e3o de agentes p\u00fablicos, operadores financeiros e intermedi\u00e1rios privados.<\/p>\n<p align=\"justify\">Diante desse cen\u00e1rio, especialistas defendem que o enfrentamento ao crime organizado precisa ir al\u00e9m de opera\u00e7\u00f5es pontuais. A \u00eanfase recai sobre o fortalecimento institucional, a integra\u00e7\u00e3o entre \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia, o aprimoramento regulat\u00f3rio do sistema financeiro e, sobretudo, a capacidade de rastrear e interromper fluxos financeiros il\u00edcitos em larga escala.<\/p>\n<p align=\"justify\">Sem esse conjunto de medidas estruturais, alertam os especialistas, o Pa\u00eds corre o risco de consolidar um modelo de poder paralelo cada vez mais sofisticado, com influ\u00eancia crescente sobre a economia formal, a governan\u00e7a de territ\u00f3rios e a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o da vida social brasileira.<br \/>\n*Por: Vagner Ricardo<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Assessoria\u00a0<i>CNseg<\/i><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo de d\u00e9cadas de omiss\u00e3o e toler\u00e2ncia institucional, o crime organizado deixou de ser um problema perif\u00e9rico para se consolidar como um agente econ\u00f4mico paralelo \u2014 com &#8220;habeas corpus&#8221; de fato para expandir sua atua\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds, infiltrar-se na economia formal e disputar espa\u00e7o em mercados regulados. 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