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Transporte protegido exige segurança e logística

18 de outubro de 2019
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Com a recuperação gradual da economia, um setor que pode assumir a posição de protagonista no Brasil é o seguro de transportes, que garante proteção para mercadorias e cargas que circulam em todo o território nacional. O detalhe, segundo informações da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), é que esta modalidade de proteção está sendo procurada agora por empresas não habituadas a adotar tal providência. Até porque os indicadores da FenSeg são inquestionáveis: o mercado vive uma constante evolução.

Essa carteira registrou crescimento de 14,7% em 2018, totalizando R$ 3,5 bilhões no volume de prêmios. E de janeiro a maio deste ano, a arrecadação somou R$ 1,47 bilhão, alta de 9,4%. As indenizações atingiram a R$ 831 milhões nos primeiros cinco meses de 2019, quase 16% a mais em igual período do ano anterior. E quem atua neste setor? “Hoje a maioria das operadoras de seguros de transportes é formada por multinacionais”, ressalta Paulo Alves, presidente da Comissão de Transportes da FenSeg.

O superintendente de Transportes da Berkley Brasil Seguros, Thiago Tardone, ratifica o desempenho positivo da carteira em 2018 e 2019, com perspectivas de crescimento para o ano seguinte. Tardone justifica o cenário favorável às ações efetivas em matéria de gerenciamento de riscos empreendidas pelas seguradoras, “bem como um controle e melhor da rentabilidade dos clientes por parte das próprias companhias”. Como consequência, os segurados passaram a ter interesse e participação no que se refere ao resultado das operações.

“O grande desafio para 2020 é manter este cenário positivo uma vez que, com os resultados cada vez melhores, as condições do mercado tendem a ser menores, diminuindo a margem de ganho”, avalia o superintendente da Berkley. De qualquer forma, especialistas consideram que é possível elevar ainda mais a participação do segmento na economia, identificando negócios que possam fortalecer o mercado e dar amparo adequado aos riscos e necessidades dos segurados.

Embora seja considerável o volume de prêmios em 2018, em termos percentuais o índice ultrapassa pouco mais de quatro pontos, ou seja, apenas 4,3%. Os seguros obrigatórios de Responsabilidade Civil do Transportador Rodoviário de Carga (RCTR-C) e Transporte Nacional representaram, respectivamente, 1,4% e 1,2%. “Mas há condições para um extraordinário e rápido crescimento”, confia o especialista em seguros internacionais, Aparecido Rocha Mendes.

A carteira de Transportes poderá se beneficiar de novas regulações aprovadas pela Susep (Superintendência de Seguros Privados) e pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Paulo Alves destaca a nova versão do MDF-e (Manifesto de Documentos Fiscais – Eletrônico). Instituído em 2010, trata-se de documento emitido e armazenado eletronicamente. Tornou-se obrigatório em 2014 e válido em todo o País, emitido quando ocorre transporte de mercadorias. Para que o MDF-e seja validado é necessária assinatura digital do emitente e a autorização da Secretaria da Fazenda.

No entanto, o seguro de transportes no Brasil enfrenta alguns entraves que não podem ser superados somente com o ambiente favorável da economia. Os mais graves e preocupantes são a incidência do roubo de cargas, o péssimo estado das rodovias, envelhecimento da frota e ineficiência das ações governamentais. As seguradoras precisam pensar em estratégias e formas para reduzir o risco do transporte sob pena de amargar graves prejuízos.

A prevenção aos danos passa obrigatoriamente por um trabalho sistemático e bem equacionado de gerenciamento do risco. “Além de prevenir sinistros, uma boa gestão contribui com a melhora nos índices de eficiência operacional do cliente”, acrescenta o diretor de Transportes e Auto Frota da Sompo Seguros, Adriano Yonamine. Ele lembra que o acompanhamento regular e a adoção de mecanismos que impeçam a ocorrência de sinistros impactam positivamente no resultado financeiro do segurado.

Marco regulatório

Em tramitação no Senado, o Projeto de Lei nº 75/2018 irá regular o transporte rodoviário de cargas. O PL estabelece normas gerais sobre o setor, incluindo os seguros a ele relacionados e gerenciamento de riscos. O PL institui o Marco Regulatório do Transporte de Cargas, cujo texto disciplina questões, como frete, seguro, relações contratuais e penalidades do Código de Trânsito Brasileiro. Para o head of Marine Brazil da AXA XL, Paulo Robson Alves, o marco regulatório “colocará o setor securitário diante de uma série desafios, exigindo uma mudança de comportamento do mercado em geral”.

Será preciso aos players se adaptarem a uma nova realidade. Transformada em lei, a matéria exigirá uma análise precisa do risco, ao se considerar os altos índices de roubos de cargas. “As determinações valem para caminhoneiros autônomos, empresas de operação logística, transportadores de carga própria, cooperativas e empresas transportadoras de cargas e de valores, que ficam divididos de acordo com o número de veículos de carga e a capacidade de transporte em toneladas”, aponta Thiago Tardone.

A proposta do Marco Regulatório surge para atender reivindicação dos caminhoneiros, que paralisaram a economia do País durante 11 dias de maio último. Tardone entende que algumas mudanças no texto inicial sejam efetuadas “para que o impacto no Seguro de Transportes seja minimizado e que a comercialização do mesmo não seja prejudicada”. Aprovada essa regulamentação, se tornará obrigatória a contratação de seguros contra assaltos, furtos, roubos e danos à carga. E também transportadoras deverão contratar um seguro que cubra eventuais danos causados a terceiros.

Crimes no asfalto

A rigor, seguros que preservem cargas e veículos no país não precisariam necessariamente de um marco regulatório para que pudessem ser contratados. Os números em si são alarmantes: segundo dados da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC), as ações de gangues no asfalto teriam causado prejuízos da ordem de R$ 2 bilhões, somente em 2018. Informações das Polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal apontam que, no ano passado, transportadores em todo o país sofreram mais de 20 mil ataques.

“O resgate da análise da logística e definição do Plano Diretor de Segurança para reduzir vulnerabilidades voltaram à cena. A visão da cadeia de suprimentos, e não apenas da viagem em si (que envolve carga, motorista, veículo e rota), passou a ser considerada nos projetos de segurança, com o uso da tecnologia, ações de inteligência e controle de acesso às informações”, explica o diretor do Clube Internacional de Seguros de Transportes (Cist) Alfredo Chaia. Ainda que dados preliminares tenham apontado queda de 15% dos roubos neste primeiro semestre, seguradoras, corretoras, resseguradoras e reguladoras de sinistros continuam preocupadas.

O temor não é infundado. Ataques a caminhões que transportam alimentos, bebidas, eletrodomésticos, cigarros, produtos farmacêuticos, entre outros, saem paulatinamente do eixo São Paulo-Rio de Janeiro-Minas, que concentra 80% das ocorrências, e buscam novas frentes em vastos territórios como os do Norte e Centro-Oeste. “O crime ganha novos contornos com o uso da tecnologia. Precisamos de investimentos no setor de inteligência para combater o crime organizado”, ressaltou o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Estado de Goiás (Setceg), Paulo Afonso Rodrigues da Silva Lustosa, em recente workshop sobre combate ao roubo e receptação de cargas que aconteceu em Goiânia.

A verdade é que a região Centro-Oeste também esteve na mira de salteadores, pois estados como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul escoam as riquezas do agronegócio nacional. Dados mais recentes da Susep, sobre o total dos prêmios  emitidos até setembro de 2019, apontaram, por exemplo, que Goiás arrecadou R$ 45.323.204,59, representando um crescimento de 16,25% em comparação ao desempenho do ano anterior.  Isso significa que o índice goiano superou o acumulado no Brasil, que exibiu 9,43% nos números da Susep. A performance de Goiás é ainda mais expressiva se o cálculo se referir apenas a setembro passado. A expansão é de 18,55% frente ao mesmo mês de 2018.

Para combater a criminalidade, transportadoras e empresas de gerenciamento de risco investem em soluções. Uma delas é a adoção de tecnologia via monitoramento de imagens nos veículos dotados de um sistema de atuação direta nos baús. Outra medida é a construção de baús repotencializados (BRP), modelos construídos do zero (BCZ) e baús chapeados, todos com portas antiarrombamento com fechaduras randômicas, que só permitem a sua abertura com o envio de um código da central para o motorista.

Já as seguradoras se esforçam para atenuar os danos junto aos embarcadores e transportadores rodoviários. A Argo Seguros, por exemplo, oferece aos seus clientes manuais treinamentos para aperfeiçoar os procedimentos de gerenciamento de risco. “O risco bem gerenciado afasta as quadrilhas especializadas e os desvios, mas não elimina os roubos de oportunidade. Por este motivo, cada empresa tem um tratamento e recomendações aderentes a sua operação”, pondera a gerente de Subscrição Cargo Marine da companhia, Mariana Miranda.

Infraestrutura e logística

O Brasil é dono de umas maiores frotas de caminhões do mundo. Cerca de 1,8 milhão de veículos, com idade média de 12 anos, cortam estradas precárias e circulam por pontes e viadutos sem nenhuma manutenção, à beira do colapso. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) calcula que pelo menos 50% dos acidentes registrados nas estradas federais envolvem veículos antigos.

Não raro, caminhões e carretas quebram ao longo do trajeto, seja pelo seu envelhecimento ou vítimas de buracos e erosões na pista. A situação se agrava na perpetuação da dependência do modal rodoviário para o transporte de mercadorias. Os caminhões são responsáveis pelo transporte de 82% da carga. Pior: apenas 12% da malha rodoviária nacional é pavimentada, fruto da quase ausência de investimentos por parte do governo.

O gerente regional de seguros para a América Latina da Cargill, Carlos Branco, possui um estudo que avalia o uso dos modais rodoviário, ferroviário, dutovias e hidrovias no transporte de produtos. As estatísticas são medidas quanto à extensão de vias em milhares de quilômetros de seis países. No caso das ferrovias, enquanto a Rússia utiliza 80% de sua malha e os Estados Unidos 45%, o Brasil exibe apenas 15% da malha em funcionamento, com 30,6 mil km de vias implantadas. Destas 1.121 km são eletrificadas. O cenário da malha rodoviária é obviamente desastroso.

“Levamos oito anos para pavimentar a primeira rodovia, em 1928”, lembra o executivo. Se nos anos de 40 e 50, o governo investiu pesadamente, sobretudo na fase desenvolvimentista de JK, o mesmo não aconteceu a partir da década de 70, com o advento do Plano Nacional de Viação. “Modernizamos muito pouco. O dinheiro do contribuinte não é revertido para o sistema”, advertiu.

Nos últimos cinco anos, a área de transportes movimentou R$ 21,3 bilhões. Além disso, os custos de transporte no Brasil atingem 7% do PIB, a estocagem, 4% e a armazenagem, 0,6%. “Esses números evidenciam que os custos com a cadeia logística impactam diretamente na economia do País”, alerta o diretor da área de Riscos e Seguros da DHL Logistics Brazil, Guilherme Brochmann. Em sua avaliação, se não fosse a implantação de medidas de gerenciamento de riscos por parte das empresas, as perdas seriam muito maiores.

Em meio a um quadro desolador, Carlos Branco aponta três desafios no século 21, espécies de “lições de casa” para o governo federal: reduzir custos logísticos em matéria de transportes, distribuir produtos com mais eficiência e rapidez e gerar emprego e renda em toda a cadeia de distribuição. Essa tríade inclui o mercado de seguros de transportes, que mostrou vigor e capacidade de crescimento, mas precisa que gargalos ligados à infraestrutura e logística sejam e superados.

Por Carlos Alberto PachecoRevista Insurance Corp

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